V

Postado em ficção em junho 12, 2010 por ana

Eu ia descrever  hoje a minha incursão aos bastidores dos sites pornô,  guiada pelo meu grande amigo Marcos. Porém, ele acabou de me ligar, estava muito bêbado (novidade…) e ouvindo Morrissey. E isso não é um bom sinal. Vou tirá-lo de casa e arrastá-lo para alguma boate de pegação, antes que desencave os cds da Betânia.

Tinha esquecido que gente solitária e sensível fica na fossa no dia 12 de junho.

Mas até que não é uma má idéia, essa saída. Tem um gogo boy, da boatinha de copa, que me deixou na vontade na última vez que estive lá.

Tem certas coisas que que não gosto de  deixar só na promessa. Uma hora eu cobro mesmo.

Depois eu conto como foi minha visita à um dos trabalhos do Marcos.

IV

Postado em ficção em junho 9, 2010 por ana

Hoje não acordei, porque não dormi. Estou há mais de 30 horas sem pregar o olho. Só estou escrevendo aqui para fazer hora. Tenho que ficar acordada enquanto espero minha carona para sair desse fim de mundo. Se eu apagar, vão me abandonar aqui e, sabe-se lá, quando, vou conseguir sair dessa lonjura.

Quem mandou eu encher a cara com um bando de hippies? Alguém disse “Por que não vamos pro sítio?” A idéia pareceu bacana. Mas só percebi que o infeliz queria dizer “Vamos pro sítio agora?” quando já estava no banco de trás daquele chevete, numa estradinha de terra esburacada. Me distraí com o cabeludo do cabelo perfumado ( ainda vou descobrir o que ele faz para o cabelo não ficar fedendo a maconha no meio de tanta fumaça) e acabei aqui. Nesse buraco esquecido por Deus. Onde tudo em volta é mato.  Mas até que valeu a pena. O bar estava bem abastecido. E, o melhor, o cara do cabelo cheiroso é adepto do sexo tântrico…  me deu uma canseira…

O clima de paz e amor estava tão grande, que até abri uma exceção e fumei uma erva. Não sou muito chegada não, mas a qualidade da planta que eles mesmo cultivam, artesanalmente, nos fundos da propriedade, é de primeira.

Entre sexo transcendental com hiponga perfumado, várias doses lícor caseiro e  cachaça mineira, alguns baseados, conversas muito loucas e um momento voyer-quase-participando ( de um swing,  no quarto ao lado, com os donos da casa e um outro casal que veio com a gente), não sobrou espaço nem pra um cochilo.

Sem contar que meu estômago está vazio. Biscoito integral e bolo de haxixe não enchem barriga. Preciso de um x-tudo  (com tudo mesmo e mais um pouco) com urgência.

Agora estou aguardando o casal do swing acordar. Dependo deles pra voltar pra casa. Ô saco!

Enquanto isso, finjo que trabalho no notebook para escapar da influência zen sexual do carinha. Mas também, com aqueles olhos claros, cabeludo e com barbinha, é quase um Jesus. Só que sem um pingo de santidade. Se ele chegar perto agora, serão mais não-sei-quantas horas de cama, chão,parede, mesa…

O Marcos devia ter vindo. Ele ia gostar muito dessa gente maluca. Onde será que esse filho da puta se enfiou? Ou onde será que estão enfiando nele?

Preciso voltar pra casa. E logo…

O meu Jesus indecente está me olhando de um jeito… Está difícil fingir que não estou vendo…

III

Postado em ficção em junho 9, 2010 por ana

- Putaquiopariu! Minha prova!!

Esse foi o meu despertador hoje, na voz do calouro, que a trancos e barrancos tentava se vestir.

Eu havia esquecido que tem gente que vai às aulas, que faz as provas. Eu só lembro que alunos entregam trabalhos, porque essa é minha maior fonte de renda.

Falando nisso… essa semana tive que colocar uma patricinha de coluna social no seu devido lugar. A desgraçada me encomenda um trabalho sobre um tema horroroso. Concorda com o preço e  começa a me enrolar pra pagar. Diz que o cartão de crédito está estourado. Que precisa de um vestido pra um evento importante. Primeiro: eu não aceito cartão. Comigo é só cash. Segundo: estou pouco me lixando se ela vai sair na foto com roupa repetida. E terceiro: eu devia cobrar o dobro pela merda de tema ela escolheu. Tanta coisa em nutrição para desenvolver. E a anta me faz passar as duas últimas semanas fazendo um trabalho sobre alterações fecais relacionadas à alimentação orgânica. Resumindo: uma merda.

A sonsa, primeiro veio toda dengozinha dizendo que não poderia pagar. Pedindo com jeitinho. Quando ela viu que eu não cedia, teve a audácia de me perguntar o que eu iria fazer, se ela não me pagasse. Segurei a bosta do trabalho em uma mão e com a outra acendi meu isqueiro.

-Mas e o tempo que você perdeu? Vai virar cinza também?- ela teve a cara de pau de questionar.

Respondi na lata:

- Perto do prazer de ver a sua reputação virar cinza também,  até que não será um tempo perdido.

- Mas eu não vou perder minha reputação por não entregar um trabalho.

- Mas quando um certo DVD de um Baile Funk barra pesada chegar nas mãos certas e com a indicação de algumas cenas interessantes …

- Que DVD?

- O “Batidão Probido – frenético e só para maiores”. Sabe, eu já  tinha ouvido falar nesses bailes, onde rola de tudo e na frente de todo mundo.  Mas fiquei surpresa com o desprendimento de gente, que não é profissional, fazendo certas coisas, assim, explicitamente. Mas, impressionada mesmo, eu fiquei com certa cena que  ocorre no palco. Tem uma lourinha que é penetrada de tudo quanto é forma pelo Bonde dos Bem Dotados. Corajosa, a moça. Ela deu o menor orifício pra quem tinha o membro maior. E olha que eu já vi muita coisa nessa vida. Mas aquele negão… Pra poder aguentar ele por trás, acho que nem com litros de lubrificante. Ou então, estando muito drogada… Eu não lembro de ver lubrificante no vídeo. O que você usou?

Nem preciso dizer que ela abriu a carteira grifada e me deu o dinheiro. Sabe como é, com a mesada que recebo, não dá pra pagar whisky  de qualidade.

Nota pra mim mesma: agradecer ao Marcos pela informação.

E pensar que,  no site onde ele trabalha, não disponibilizaram o vídeo por acharem muito baixo nível.

II

Postado em ficção em junho 9, 2010 por ana

Acordei com o sol de meio dia batendo na minha cara.”Por que não fechei as cortinas?” E, sozinha. A noite não foi tão boa assim…Tomei um antiácido e voltei pra cama. Era domingo. E domingo é pior que segunda. Aquelas pessoas sorridentes passeando tranquilas, as familias de comercial de margarina e os casaisinhos apaixonados dos anúncios de chocolate. Domingo é puro marketing. Um dia em que todos agem como se estivessem na frente de câmeras. Como se a vida fosse um eterno happy end. Sem contar a tenebro9sa programação da tv. Um castigo para os que não vivem a fantasia domingueira.

Por volta das sete meu celular tocou. Era o Marcos . Tinha um povo reunido na casa de não-sei-quem. Anotei o endereço e tomei um banho rápido e fui. O não- sei-quem dono da casa era um professor gay afetadíssimo, conhecido na faculdade como a devoradora de calouros. A casa estava cheia. Todos já meio bêbados e eu era uma das poucas mulheres no local. Havia o povo do babado, uma meia dúzia de drogadinhos conhecidos e alguns novatos que a devoradoratentava manter sob seus domínios. E o pior que conseguia. O intelecto é uma arma e tanto quando a idade já levou sua beleza embora. Vou ter que me lembrar  disso quando tiver quarenta e quiser seduzir menininhos de dezoito… Marcos me apresentou ao anfitrião como sendo sua irmã. “Irmã ?” Nem tinha reparado o quanto éramos fisicamente parecidos.

- Gêmea . – Marcos completou – Eu não consegui decidir quem seria o mais velho – disse ao meu ouvido.

- Tem todos os seus gens , Marquinhos ? - a devoradora perguntou  assim, explicando sem explicar. Mas eu entendi muito bem o que queria dizer.

- Todos. E outros … – meu recém irmão gêmeo respondeu com malícia.

O professor me deu um abraço forte :

- Grande família. Imagino como sejam seus pais…

Eu dei um risinho sem graça e inventei que iria buscar uma bebida e voltava. Não inventei de todo, pois fui realmente atrás de álcool só que não pretendia voltar. Marcos foi comigo. Não resisti e alfinetei:

- Marquinhos ?

- Eu era um calouro ingênuo.

- Pelo que o professor disse, não tão ingênuo assim.

- Mulheres nunca ?

- Sempre.

-Homens ?

-Também.

Meu irmãozinho não valia nada. E a-d-o-r-e-i isso. O Marcos me apresentou  o lado louco do curso de letras e, também um pessoalzinho de artes. Acabei salvando um calouro gracinha das garras da devoradora . Arrastei o bonitinho pra minha cama. O Marcos ficou lá. Muito ocupado, por sinal, com uma dessas electro-moderninhas de cabelo colorido e bijoux de plástico. Já o meu novato, mostrou que sabia muito mais do que aparentava…

I

Postado em ficção em junho 9, 2010 por ana

Era onze e meia quando eu acordei. Uma ressaca daquelas e o despertador apunhalando a minha cabeça. Fui me arrastando até o banheiro,tomei dois analgésicos, a seco e fui tomar um banho. Tentar ficar apresentável. Tinha um compromisso por volta das treze e não queria me atrasar. Enquanto abria o chuveiro pensava em como, depois de quase quatro anos frequentando os mesmo lugares ainda não havíamos nos encontrado. A universidade é grande, mas não é o mundo. E o “nos” em questão sou eu e o Marcos. Alguém que surgiu pela internet, vindo de um outro lugar e de uma outra época. Uma época que, ás vezes, duvido que tenha realmente existido. Mas existiu, e eu estava me preparando pra encontrar com a prova viva disso em poucos minutos. A imagem que eu tinha do Marcos era bem próxima a que eu tinha de mim mesma naquela época: CDF sem óculos, cabelo esquisito,corpo franzino. A diferença é que eu era no mínimo cheinha, pra não dizer gorducha e tinha o rosto coberto de espinhas, ao contrário dele , que ainda mantinha a pele de bebê.Tínhamos os mesmos amigos, gente que eu nem sei se está viva ou morta. Gostávamos de escrever e de cinema. Dividíamos as mesmas salas de aula num colégio pequeno e pseudo liberal para os filhos dos pequenos burgueses , pseudo modernos de uma cidade do interior economicamente emergente. Complexo, não? Mas explica muita coisa. Afinal, fugimos os dois daquele mundinho para ganhar a liberdade. Ele veio antes, com papaí , mamãe e irmãozinho. Nem completou o ensino fundamental conosco. Eu fiquei por lá ainda três longos anos . Até que saí da bolha e cá estou. Se pudessem me ver … Se soubessem…

Tive que pegar um ônibus pra chegar ao lugar do tal encontro e , com todo aquele calor e sacolejo , quase me arrependi por ter convencido meus pais a substituirem o carro zerinho e com ar condicionado que me dariam, por ser uma boa menina e passar pra direito, por um quarto e sala num prédio suspeito perto do campus. E me arrependi de fato, por ter concordado com a hora e o local escolhido pelo Marcos. Ao chegar na praia, a preferida do surfistas daqui, me perguntei se o dito cujo era agora um daqueles parafinados de pele castigada pelo sol e bermuda colorida. Se aquela areia e aquele mar eram a sua casa. E eu , ali , como uma vampira , de preto dos pés a cabeça, com óculos escuros enormes , procurando um quiosque com um nome engraçado . Sentei na areia sem saber se o sacrifício valeria a pena . Comprei uma latinha de cerveja de um ambulante e acendi um cigarro. Fiquei observando aquela gente dourada , o colorido brega das barracas e o dia irritantemente belo. Uma mão tocou o meu ombro.

- Ana?

    Era ele.

- Marcos?

    E como eu, havia nele apenas lembranças vagas de sua aparência antiga.

- Você está muito diferente. – ele disse com um leve sorriso.

- Eu retribuo o elogio.

Nesse instante nos reconhecemos. Eu dei uma boa olhada nele. Reparei que também não combinava com o cenário tropical em que estávamos: camisa preta com estampa vintage, jeans desbotado , All Stars novíssimos, dois brincos numa orelha só e cabelos ligeiramente despenteados. Também estava de óculos escuros. Ao perceber isso, tirei os meus esperando que ele fizesse o mesmo.

- Por que aqui?- não resisti e perguntei.

- Por que nunca tinha vindo aqui de dia .

- E o que achou ?

- Podia passar sem.

- Vamos sair desse sol ?

- Por favor.

Encontramos um boteco numa rua de pouco movimento. Ocupamos uma mesa mais afastada e entre uma garrafa e outra passamos um resumo de nossas vidinhas. Pra minha surpresa, ele também havia adotado a filosofia do risco calculado . Nada de confusão com a polícia, nada de drogas químicas, nada de sexo sem proteção, nada de bombar na faculdade, nem de arranjar problemas com a família ( afinal, ele pagavam nossas contas) e todo o resto estava permitido. Muito álcool , muto sexo e alguma erva. Essa era a nossa vida . Íamos as aulas o suficiente para não sermos reprovados e mesmo assim tirávamos boas notas. Enganávamos nossos pais inventando estágios imaginários enquanto passávamos boa parte do dia de ressaca. Meu pai achava que eu ganhava meu “dinheirinho” em um escritório especializado em auditoria e o dele , acreditava que o filhinho informata seria o novo Bill Gates. Mal sabia o meu papai , que o meu extra vinha dos trabalhos e monografias que eu vendia para estudantes preguiçosos ou menos favorecidos intelectualmente. Mas, decepção maior seria a do pai do Marcos , se descobrisse que o primogenito trocou a informática por letras e, que o estágio na multinacional era , na verdade, uns trabalhos como web designer free lancer para alguns sites pornô. Mas sejamos racionais: o que ganhávamos com nossas ocupações alternativas chegava a ser quase dez vezes mais do que ganharíamos acordando cedo e batendo ponto. E de algum lugar tinha que vir o dinheiro pras nossas noitadas e não era das mesadas curtas que nos mandavam.

Eramos tão parecidos que chegava a assustar. Alguns amores platônicos, nenhum correspondido, alguns casos e muito, muito sexo casual.

Definindo: promíscuos.

-Viva a santa camisinha ! – brindou já sob efeito da cerveja.

-Viva a santa camisinha ! – repeti .

Estava escurecendo, então , resolvemos pegar o ônibus de volta pro centro.

-Também não tem carro ? – perguntei.

-Tenho, mas quase não uso por causa do sistema .

- Que sistema ?

- Depois que eu quase bati, criei um sistema : só saio de carro quando eu tenho certeza de que não vou beber e, para garantir, que eu não pegue o carro chapado, as chaves ficam numa caixa com cadeado de senha.

- Você tá brincando ?

- Não.

- Sério?

-Sério.

E explodimos em gargalhada. As pessoas na condução sem entender a razão de tanta graça. Nós mesmos eramos a piada e a platéia. No centro, paramos em outro bar e lá encontrei conhecidos que me falaram de uma chopada que ia rolar mais tarde. Garrafas depois, e lá estava eu e meu velho amigo recém reencontrado na nossa primeira balada juntos. Nos perdemos em seguida, entre uma boca e outra.

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